
O esquecimento está cheio de memória. Cada lembrança é um tijolo que constrói a minha vida. A eternidade é um dia.
sábado, 30 de janeiro de 2010
Eu bem me recordo

quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Embaladora de sono 2
Executou a nossa primeira embaladora de sono, com corda e dois paus de madeira. As embaladoras de sono são nossa companhia na Serra desde que me conheço. Meu Pai, marinheiro de profissão, sabia fazer Nós de Marinheiro. Executou a nossa primeira embaladora de sono, com corda e paus de madeira. Tinha de ser forrada com uma manta por causa dos nós não nos magoarem as costas. Com o passar dos anos, substituiu-a por duas em lona. Duraram muitos anos. Mais de 25. Ao chegarmos à Cerdeira para férias, estas embaladoras de sono já esperavam por nós, presas às oliveiras. Pai tomou sempre conta da sua manutenção. Mudava as cordas sempre que preciso e atava-as de uma maneira especial às oliveiras, no Serrado. Aqueles nós nunca se desmanchavam apesar de nos baloiçarmos para a esquerda e para a direita. Antes de haver Serrado, eram levadas debaixo do braço para o pinhal mais próximo, para depois de almoço, irmos dormir uma sesta. O Sol de Verão e as chuvas inesperadas iam moendo o cordame. Antes do tradicional bate costas - que até faltava o ar - todos os anos eram inspecionadas. Ele bem avisava «cuidado que isso não é nenhum baloiço» ... embora o fosse muitas vezes, por mim e muito mais tarde pela neta e amiguinhas. Gostavamos tanto de baloiço que Pai mandou fazer uma armação em ferro, pintado de cor-de-rosa, a cor predilecta da neta, mas com dois baloiços pendurados.
Até que Pai se foi. As embaladoras de sono, em lona, também se foram. Sem certeza, talvez ainda reste uma, agora com manutenção a cargo de meu irmão. Mas deve estar quase a pedir reforma. Que saudade de meu Pai, que saudades das embaladoras de sono, que saudades do baloiço.
