sexta-feira, 15 de maio de 2009

Tios que se tornam inesquecíveis

1 Tia Maria Luisa 2 - Tio Luís Pinto 3 - Euzinha
Num clube no Barreiro. Noite de Passagem de Ano. 1968.
Tios do Barreiro. Eram assim identificados por nós. Ele era irmão de meu pai, era o meu *Tio do Barreiro*. Num tempo em que me encontrei com Pais e Irmão ausentes em Luanda, recebi um convite. Nas férias de Natal, a seguir ao mesmo.
Naquele tempo, o Barreiro que ficava do outro lado do Tejo, era longuíssimo. E o Tejo era largo na sua travessia de barco. Haviam naufrágios e abalroamentos naquele tempo, quando o nevoeiro baixava sobre as águas, no Inverno. O som das sirenes e dos sinos de bordo, ouviam-se deste lado. Estava em casa da Prima Elvira, na Calçada de Sant'Ana, em Lisboa, com cheiros e sons do Tejo a chegarem-nos. No café ao lado, chegavam imagens a preto e branco ao pequeno ecran. Marinheiros inclinados sobre a água, seguravam instrumentos que lhes permitiam calcular se o rio levava água suficiente para não encalharem. Os instrumentos a bordo seriam parcos. São apenas flashes de memória.
A Ponte sobre o Tejo em Lisboa, recentemente inaugurada, era atravessada por aqueles que tinham carro. E só. De modos que, para eu ir passar as férias desse Natal com os meus Tios, tive de fazer uma longa viagem de autocarro até à Praça do Comércio e depois apanhar o barco, com mala-não-de-cartão na mão. Do outro lado, no Barreiro, alguém me esperou. Não me recordo de quem. Mas recordo a estadia, os passeios no mini Morris (foi tão bom andar de mini), o pic-nic nas matas da Costa, embora no Inverno, o Futebol Clube Barreirense onde meu saudoso tio me levou algumas vezes depois de almoço (a tia ficava em casa a arrumar a louça) para tomarmos a bica. Não recordo o edifício. Só um salão, enorme, com mesas pequenas e redondas, castanhas, e cadeiras à volta, cheiro a fumo e a café, sons de vozes em tom alto, gargalhadas, louças, apertos de mão, sorrisos ... poucas senhoras... Penso hoje que aqui fossem passadas algumas das tardes de fim de semana. Embora cumprimentasse com um aceno de cabeça ou a mão levantada quase todos, era para o grupo dos seus amigos que nos dirigíamos. Assisti a um convívio que me era desconhecido de todo. Não eram família, mas comportavam-se como tal. Por estas bandas, na minha Lisboa, não haviam assim tantos amigos para conviver em grupos fora de casa. Ou não podiam haver. Não se convivia assim como eles conviviam, lá no Barreiro. Também talvez, por causa da CUF, onde meu Tio sempre trabalhou. Eram muitos os conhecidos, alguns, os amigos. Havia muito respeito, conversava-se e eu, fora daqueles assuntos, era apenas um corpo presente - a sobrinha de meu tio - a quem dirigiam um cumprimento, ou um sorriso. Eram outras as cabeças. Eram outras maneiras de saber ser, de se estar. Hoje não consigo, sem misturar o que a vida e a história me ensinaram, arranjar palavras para descrever as diferenças entre as gentes do Barreiro e as gentes de Lisboa, nos anos 60. Ficou-me apenas a sensação de serem diferentes. Mas de uma coisa ficou-me não a sensação, mas a certeza: o orgulho que ambos sentíamos um no outro, de ser a única sobrinha do meu tio do Barreiro e de ter um tio que eu sentia gostar de mim.
Aquele fim de ano com baile, no meio de gente desconhecida para mim mas amiga dos tios, será inesquecível. Penso que foi no Clube Naval, mas se calhar erro o nome da colectividade. Ficou-me na memória o local. Muita gente, um grupo de amigos, sorrisos, um são convívio. Espumante e bebidas e doces nas mesas. Ter dançado com tio e com um amigo dele. Só estas duas vezes. Ter preferido ficar sentada, a observar. A foto foi-me oferecida mais tarde. Guardei-a. Recordo-a aqui, com intenção de vos agradecer e de vos assegurar que estarão sempre no meu coração (embora já não me ouçam nem me leiam porque já vão um pouco à minha frente, lá na curva da estrada ...).
Até sempre.

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