sexta-feira, 15 de maio de 2009

Que viagem. De Luanda a Lisboa, com paragens pelo caminho

Dia de partida, em Agosto de 1970. Deixámos Luanda. Foi doloroso o adeus, porque Pai ficou mais 1 ano, desta vez sozinho. Quando chegássemos a Lisboa, mais dia menos dia, eu iria celebrar os meus 17 com festa prometida. Foi mais dia do que menos. A viagem prolongou-se, para meu contentamento e espanto. Viajávamos em classe Turística A. Eu, Mãe e Irmão.


Euzinha e irmão - a bordo do Infante D. Henrique. A despedida retratada por J. Pinto


Próxima aportagem: Ilha de S. Tomé. Ilha de S. Tomé? Mas não sabíamos! Que bom! Telefonamos de bordo para uma «Família que se encontrava também em Comissão de Serviço» na capital S. Tomé, a avisar da passagem. Passados uns dias e S. Tomé à vista. «.../Na altura, como hoje, a São Tomé o batel não aportava; e nas cálidas águas equatorianas o navio vogou, vogou, vogou...» como li In malambas.blogspot.com. Tal e qual. O navio fundeou ao largo, num mar agitado (para nós foi agitado!). Informaram-nos a bordo que viria um barco a motor buscar-nos para terra. Esperámos. Uma casquinha de noz aproximava-se do navio ancorado, não atracado. Vamos? vamos! insistíamos. Eles estão à nossa espera. Mãe olhava debruçada no convés aquele barquinho que as ondas empurravam e afastavam da escada por onde devíamos descer. E navegar naquilo, até porto seguro que estava tão distante. Se soubesse que o barco não acostava ao cais nem tinha telefonado, dizia Mãe. O mar está tão picado! Não sei se por ver alguns passageiros a descer ou pela nossa insistência, Mãe anuiu e lá fomos. Os três, em bicha de pirilau, descendo atrás de outros como nós, encostados à amurada do navio. Degrau após degrau, já no patamar das escadas, com ajuda dos marinheiros, um ao pé de nós, outros no barquinho, esperámos oportunidade para saltar para o «vaporzinho»* e não cair à água. A casquinha de noz a motor não era um batel mas as águas também não eram cálidas. Antes apaixonadas, vigorosas. Foi difícil. Alguns gritos de aflição, alguns salpicos. Muitos risos de nervoso-miudinho. Uma aventura para nós, inesquecível para mim. Mãe, não gostou lá muito, na altura. Para trás foi ficando aquele imenso navio, belo, imponente e seguro. À nossa espera, uma mancha muito verde. Onda acima, onda abaixo, os nossos enjôos foram vencidos mas outros gritaram pelo gregório.

Atracámos no cais na cidade de S. Tomé. Mãos acenando e lá estavam, D. Helena e Senhor José. Esta S. Tomé, que continua a ser uma bela Ilha tropical, com o Equador a passar-lhe em cima (está desenhado no chão a linha equatorial), de clima quente e húmido (muito mais que em Luanda) com vastas florestas tropicais, muitos rios e praias de sonho. Dos naturais lembro-os de grandes olhos e sorrisos, principalmente putos, idênticos aos de Luanda que pediam a quinhenta.

1- Graça 2- Zé Paulo 3- Euzinha, mais o senhor motorista

Os nossos amigos tiveram a simpatia de nos mostrar uma parte da cidade e um pouco à volta da mesma. Tinhamos poucas horas. Recordo um areal com imensas palmeiras inclinadas numa baía linda, de águas límpidas e azuis. Seria a praia das 7 ondas, se a memória não me atraiçoa, nesse tempo vedada a banhistas, por causa de tubarões. Uau! do que eu me lembrei agora. «Esperem e contem a ver as 7 ondas seguidas. Depois o mar faz intervalo.» Será? Ou o meu cérebro está a pregar uma partida?

Não deu tempo para mais. Na memória ficou o ar que respirei, o sol, a chuva, tudo ao mesmo tempo. O mar. A simpatia dos locais. Os meus amigos Helena, José, Graça e Zé Paulo. Abraços beijinhos. Obrigada e até Lisboa.

* Este foi o «vaporzinho» que fez a recolha dos passageiros para terra e depois os levou de volta ao paquete

O regresso ao navio Infante D. Henrique, onda acima onda abaixo, fez-se sem receios. Rumo ao puto. Mas antes, iriamos também parar em Las Palmas de Gran Canária. Mais uma surpresa.
Nota: Pelo que convivemos e pela grande amizade que sinto por vós, apesar do contacto ser quase nulo, hoje, passados cerca de 40 anos, sei que estão vivos e com saúde. A vossa família aumentou. 5 netos, disse Mãe, há tempos, quando se encontraram num lanche, a contar reumáticos e coisas de netos. Meus queridos Gomes, saúde e sorte é o que mais vos desejo.

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