quarta-feira, 16 de março de 2011

Eu conheci duas «Sagres»

Base Naval do Alfeite. Uma Sagres ao lado da outra. Quantas pessoas terão esta memória?
Pelos meus «soquetes» e tamanho de meu irmão, seria uma teenager em início de carreira. Por causa do que li deve ter sido poucos anos após 1962, que ocorreu este clic.
Porquê este local de militares estar aberto a civis? Era assim, não sei se ainda é. Os tempos mudaram algumas coisas boas.
Se bem me lembro, quando aconteciam datas comemorativas e o senhor meu Pai se encontrava de serviço à Sagres, ausente portanto do seio da família, se o navio estivesse atracado perto de Lisboa, nós íamos até lá passar o dia com ele. Até lá, ao trabalho do Pai. Aliás, tenho na ideia que a tripulação de serviço podia convidar a respectiva família para almoço e visita ao Navio, contribuindo assim para formar uma outra Grande Família - a Família da Sagres. Recordo isso porque tenho gravado na memória a mesa comprida e estreita onde nos era servido o almoço, depois de descer umas escadas de degraus estreitos e profundos, agarrada a um corrimão de corda grossa. Era uma sala pequena, forrada no chão e muito confortável. Na época, ainda não conhecíamos alcatifas, por isso a retenção dessa decoração na minha memória. À cabeceira da mesa, sentava-se, quase sempre sorridente, o oficial de serviço, um dos muitos oficiais do navio a quem calhava ficar de serviço, tal como às outras patentes.
O saber comportar-nos, saber agarrar nos talheres certos, não pôr os cotovelos na mesa, falar quando nos falassem, era tema relembrado pela senhora minha mãe, no caminho para o evento. Porque ficávamos sentados logo a seguir ao «chefe», tinha de haver mais cuidado. Houve uma vez (devia ser mesmo pequena, teria uns 5 anos de idade) em que me sentaram ao lado dele, do oficial de serviço. Eu mal chegava aos talheres, mas a lição estava aprendida em casa, comi tudo e recebi muitos sorrisos das fardas à minha volta. Fui, nesse dia, o orgulho do papai!
Voltando atrás, não terminava em nós o número de comensais. Seguiam-se mais «fardas» sentadas com as mulheres e os filhos, ao longo dessa mesma mesa. Como uma grande Família. Sinto-me muito bem quando recordo estes momentos do meu tempo de menina.
A estória desta foto, com as duas Sagres em plano de fundo, que têm içadas uma mesma Bandeira, a Portuguesa, foi passada num Domingo de Páscoa, isso eu lembro, por causa dumas amêndoas chatas e outras castanhas e rugosas que nos ofereceram numa taça. Nunca tinha provado nada semelhante. Aquelas sim, eram muito boas. Não enchiam a boca, podiam trincar-se sem o perigo de partirem algum dente e tinham um sabor... sentado, o senhor meu Pai com filho-de-amigo ao colo, decerto visita também, euzinha sentada ao lado de braços cruzados e soquetes calçados, meu irmão em pé (teria uns 8-9 anos) e as duas «Sagres». No cais do Alfeite.
Guanabara, o novo navio que veio substituir a Sagres velhinha, roubou-lhe o nome. Ficou de sua graça a nova-Sagres. A mesma Sagres onde o Presidente da República, Anibal Cavaco Silva teve o seu almoço de tomada de posse, há uma semanita atrás.



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